
Símbolos de traição, suicídio, veneno e perigo, os escorpiões estão entre os animais menos amados do Planeta. Mas mesmo quem os teme reconhece e até admira sua capacidade extrema de resistência: eles vivem bem tanto nos desertos escaldantes como em cavernas frias, e nem se abalam com os venenos químicos que usamos para nos defender de invertebrados considerados pragas. Acredita-se, inclusive, que, no evento de uma catástrofe nuclear global, eles estariam entre os sobreviventes, ao lado de suas presas mais comuns: as baratas.
Resistência – gostemos ou não – também é uma característica de alguns tumores e males do organismo humano, contra os quais pesquisadores ‘queimam tutano’ e dedicam anos de estudo, em busca de remédio. Curiosamente, um desses males talvez seja derrotado por uma enzima contida no veneno do escorpião-amarelo brasileiro, cientificamente conhecido como Tityus serrulatus. Seria algo como fazer a soma de duas forças resultar em um toque de suavidade...
O mal, no caso, é a fibrose pulmonar, uma doença causada pelo aumento das fibras no tecido pulmonar, do qual decorre o endurecimento das paredes do pulmão e consequente perda de capacidade respiratória. Em muitos casos, a fibrose pulmonar é uma doença ocupacional, afetando mineiros ou trabalhadores que estão em contato constante com partículas em suspensão, como sílicas e amianto, entre outras.
Ao estudar o veneno do escorpião-amarelo, o grupo de pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP/USP), liderado por Lúcia Helena Faccioli, descobriu o potencial de enzimas conhecidas comohialuronidases, no recrutamento de células com características semelhantes às células embrionárias, que são indiferenciadas e servem para formar os tecidos (chamadas decélulas mesenquimais).“Nós mostramos que estas células recrutadas para os pulmões, participam da inibição da fibrose local”, explica a pesquisadora. “Considero estes dados muito relevantes, pois abrem uma possibilidade de tratamento de pacientes com fibrose pulmonar”. De uma maneira bem simplificada, a ação dessa enzima seria algo como estimular a formação de um ‘remendo’ suave para reparar um tecido excessivamente endurecido.
O trabalho orientado por Lúcia no Laboratório de Inflamação e Imunologia das Parasitoses é conduzido por Claudia Bitencourt, pós-doutoranda com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e conta com a colaboração de outra aluna, a doutoranda Priscilla A. T. Pereira. Ainda participam do estudo as pesquisadoras Simone G. Ramos, Suely Vilela Sampaio e Eliane C. Arantes, todas do campus de Ribeirão Preto. Além das bolsas Fapesp, elas têm recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
No decorrer das pesquisas, as cientistas buscaram outras fontes de hialuronidases, pois a quantidade isolada a partir do veneno do escorpião era muito pequena. Elas compararam os efeitos com o mesmo tipo de enzima obtida do líquido seminal de bois e os resultados foram os mesmos. “Como a hialuronidase de boi é um produto comercial, vendido em farmácias, ou purificado e vendido por empresas diversas, demos continuidade aos estudos com o produto comercial”, acrescenta.
As hialuronidases também provaram ter potencial antitumoral e antiinflamatório, mas os detalhes ainda não podem ser divulgados, pois o grupo aguarda o reconhecimento de uma patente, já depositada. “Nosso grupo é o primeiro a desvendar parte de seus mecanismos de ação. Temos outros resultados que poderão sugerir outros usos, mas ainda não podemos divulgar. Nossa patente se refere a novos usos desta enzima e, também, novas formulações”, resume Lúcia Faccioli.
Por enquanto não houve interesse da indústria farmacêutica em investir nos testes necessários para transformar este potencial num medicamento. Mas esperamos que o interesse surja quando a patente for concedida. Afinal, fibrose pulmonar é um mal que afeta um grande número de pessoas, aposentadas precocemente e, por enquanto, sem perspectivas de cura, somente de tratamento de convivência com a doença.
Fonte:planeta sustentável(abril)
Foto: Rogério Bertani/Instituto Butantan (escorpião-amarelo)
Foto: Rogério Bertani/Instituto Butantan (escorpião-amarelo)
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